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Tradutor lança jogo sobre preconceito contra religiões de matriz africana

Games são um ótimo mecanismo para escapar da realidade, viajar por diferentes reinos, resgatar a princesa sequestrada pela enésima vez ou até mesmo impedir o novo plano de dominação mundial de algum cientista bigodudo. Mas eles também podem ser ferramentas poderosas para ensinar lições importantes.

Essa é a ideia por trás do jogo “A Gata sob o Ojá”, lançado neste sábado para computadores. Nele, o jogador controla uma gata adepta do candomblé, e que tem que enfrentar todo tipo de preconceito dentro de um vagão de metrô. Ao jogador, cabe escolher a resposta adequada para cada ataque, o que influencia o final do game.

O jogo é adaptado (ou, na linguagem gamer, localizado) para a realidade brasileira do original The Cat in the Hijab, criado pelo designer norte americano Andrew Wang, e que fala sobre islamofobia. Quem teve a ideia de trazer o game para a realidade brasileira foi o tradutor alagoano Marcus Vinicius Santos.

“No início do ano eu estava procurando jogos para traduzir e, de preferência, que tivessem uma temática educativa. Aí, tive notícia de que tinha ocorrido um evento de jogos nos Estados Unidos, voltado para temas como o preconceito [o ResistJam, realizado em março]. Um dos jogos mais comentados era o The Cat in the Hijab. Eu vi e fiquei muito mexido”, diz Marcus.

Ele conta ainda que assim que viu o conteúdo do jogo, ainda que não fosse de uma realidade presente no Brasil, pensou em entrar em contato com o criador do jogo para realizar a tradução para o português.

“Considerei um bom jogo para refletir. Em junho, mandei um e-mail para o produtor do jogo e ele me respondeu 5 dias depois, dizendo que tinha interesse na tradução. Eu respondi sugerindo que, ou a gente trabalha na tradução do jogo original ou faz a localização do jogo. O Andrew achou que era uma ideia melhor localizar”, relata o alagoano.

O jogo sai uma semana antes do Dia da Consciência Negra, celebrado no país em 20 de novembro para reforçar a luta pelo fim do preconceito.
A ideia de abordar o preconceito contra as religiões de matriz africana surgiu logo depois, primeiro com uma ideia, que foi tomando forma e força à medida que Marcus pesquisava mais sobre o assunto. Durante a pesquisa, ele conheceu a pernambucana Marina Gomes Barreto. A estudante de hotelaria e adepta do candomblé acabou virando consultora no processo de localização.

“Eu contribuí basicamente contando experiências que eu e outras pessoas, inclusive na minha família, vivemos. Nunca tive muito contato com jogos, mas quando o Marquinhos veio falar comigo eu percebi como às vezes eu ficava tentando me conter, mas acabava discutindo com pessoas que chegam e falam que é macumba, bruxaria, ainda que sem a intenção de ofender, mas ofendendo.
Jogando, eu consegui sentir isso”, conta Marina.
Algumas das situações vividas por Marina foram inseridas no jogo. Ela relata uma, em que precisou ir ao banco com a roupa que estava usando no terreiro, incluindo o ojá (uma espécie de turbante) e um colar de contas (o guia), objetos sagrados para o candomblé.
“O banco estava muito cheio e não tinha lugar para sentar. Fiquei de pé, ao lado de um rapaz, e percebi, quando entrei, que virei o centro das atenções e esse rapaz era o mais indiscreto. Ele ficou me olhando, e isso me incomodou. Daí virei e perguntei a ele ‘se fosse uma freira, você estaria olhando para mim desse jeito?’. O rapaz ficou sem jeito, tentou desconversar, mas pediu desculpas”, afirma Marina.

Jogo para refletir
Marcus vem trabalhando na localização e tradução do jogo desde julho. O desenvolvedor do game original modificou a personagem, que antes vestia trajes típicos do islã e agora usa um ojá e um colar de contas.
A reportagem teve a oportunidade de testar o jogo antes de ser disponibilizado para download. O game é curto, dura cerca de 5 minutos, e o jogador controla a gata, personagem central na história.
É praticamente impossível não se sentir ofendido com algumas coisas ditas pelos outros gatos no vagão. E cada abordagem traz uma série de opções de respostas. Após escolher uma, outras aparecem, até que o diálogo termina e surge uma outra situação. O jogador também presencia transfobia e deve decidir o que fazer para ajudar a outra vítima.
“Para quem está habituado a jogar outros jogos maiores, violentos, não tem nada disso aqui. É um jogo mais para provocar reflexão. Você não pula na cabeça dos outros, apesar de dar vontade algumas vezes”, brinca Marcus.
E, no fim das contas, esse é o objetivo principal do jogo, provocar o diálogo e levar o jogador a se colocar na pele do outro.

Para Marina, o jogo e outras iniciativas são importantes para educar a população e evitar que casos de preconceito se repitam.
“Essas coisas que passamos não são de agora, vêm de muito tempo. Tem mais gente denunciando na mídia, nas redes sociais. Fico feliz em poder contribuir e ver gente que não vive a mesma realidade que eu e outras pessoas se incomodando também com nossa dor, interessados em ajudar a educar. É um passo importantíssimo”, destaca Marina.

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